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quarta-feira, 05 junho 2019 17:32
Atualidade

Gestão do cancro de mama nos homens: melhorar o outcome e ultrapassar o estigma

Diretora da Unidade de Mama da Fundação Champalimaud, a Dr.ª Fátima Cardoso foi palestrante convidada pela ASCO para abordar o cancro da mama em doentes do género masculino, na sessão dedicada a tumores raros no espectro da neoplasia mamária. Na sua comunicação abordou aspetos importantes da biologia tumoral e estratégias terapêuticas para esta população. A especialista alertou como ainda o diagnóstico precoce e até mesmo tratamento adequado continuam a ser negligenciados, por se tratar de um cancro tido como feminino na população masculina.

O cancro da mama nos homens é raro, “corresponde a 1% de todos os cancros da mama e corresponde também mais ou menos a 1% de todos os cancros no homem”, elucidou a Dr.ª Fátima Cardoso, informando que “foi criado o que nós chamamos International Male Breast Cancer Program. […] Este programa tem três fases, duas delas já estão quase terminadas, a 3ª será, se conseguirmos o dinheiro, será fazer um estudo randomizado, prospetivo em cancro da mama precoce no homem”.

“A primeira parte do estudo foi uma série retrospetiva”, partilhou a especialista. Esta série analisou os dados clínicos e os tumores de 1800 doentes. “Vimos que a maioria são carcinomas ductais […] e que quase todos são recetores hormonais positivos; a percentagem de recetores hormonais negativos na nossa série foi de 1%”, afirmou, acrescentando que “a maioria tem recetores de progesterona positivos e recetores de androgénio positivos” e que, “em relação ao HER2, cerca de 10% apenas são positivos”. Assim, a mensagem destes dados, na perspetiva da especialista é que, nos homens, deve-se sempre pedir a revisão da anatomia patológica se o relatório indicar recetor hormonal negativo, ou HER2 positivo ou outro subtipo histológico não ductal.

Neste estudo verificou-se que “a qualidade do tratamento é menor para o cancro da mama quando aparece nos homens do que quando aparece nas mulheres; […] normalmente eles são diagnosticados de forma tardia”, explicou a oncologista, chamando a atenção para “não se banalizar alterações que acontecem na mama do homem”.

A análise mais aprofundada das amostras tumorais através da sequenciação de RNA “permitiu-nos verificar que existem dois subtipos distintos dentro do cancro da mama do homem”, partilhou. “Os colegas da Suécia deram uma nomenclatura de male simplex e male complex, sendo que o male complex é muito semelhante ao cancro luminal da mulher e o male simplex é um subtipo que não existe na mulher e portanto nós agora estamos a tentar caracterizar melhor esse subtipo para ver se há uma forma diferente de o tratar”, concluiu.

“Outra parte da nossa investigação tem a ver com uma utilização da plataforma nanostring que permite estudar as diferentes assinaturas genómicas […] elas também têm valor prognóstico no cancro da mama no homem, ou seja, aqueles tumores que são classificados de alto risco têm efetivamente um pior prognóstico e um pior outcome e aqueles que são de baixo risco têm melhor sobrevida e melhor prognóstico”, sublinhou.

Na reta final da entrevista, a especialista explicou que as análises das amostras mostraram, igualmente, que a biologia mais típica do cancro da mama no homem é a ativação da via PI3K- AKT – mTOR. “Como nós temos novos agentes que podem agir nessa via, poderá ser uma boa hipótese”. Adicionalmente, “também temos estado cada vez mais a tentar compreender como funciona o recetor de androgénio no cancro da mama globalmente, na mulher e no homem porque esse é um recetor muito complexo”, afirmou, complementando que esse recetor tem um funcionamento diferente consoante o tecido e o ambiente hormonal.

Nesse sentido, a Dr.ª Fátima Cardoso partilhou: “o modelo do cancro da mama no homem é um bom modelo para tentar perceber o funcionamento do recetor de androgénio e, como há medicamentos que são dirigidos contra este recetor, poderá no futuro abrir-se uma porta terapêutica para estes doentes”.

Apoiar e acompanhar os homens que vivem com cancro de mama

Na opinião da Dr.ª Fátima Cardoso para um tratamento equitativo e qualitativo dos doentes masculinos começa por ultrapassar o estigma, sendo para isso um “facto importante a edução tanto dos doentes como dos profissionais de saúde”.

Sublinha ainda a necessidade de não se descurar a parte estética “só porque se trata de um homem”, pelo que recomenda a que se ponderem a outras técnicas de cirurgia que não apenas a mastectomia radical.

Fundamental é claro o diálogo aberto sobre um dos efeitos secundários da hormonoterapia na vida sexual destes doentes.  E o acompanhamento adequado para evitar desistências tal como aquele que é dado às mulheres.

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